terça-feira, 14 de junho de 2022

 





Em 1969, Stonewall In era o único lugar em Nova York em que pessoas não heterossexuais se sentiam confortáveis para expressar sua forma de ser e amar. Em 1969, Stonewall In era o único lugar em Nova York em que pessoas não heterossexuais se sentiam confortáveis para expressar sua forma de ser e amar. O local, no entanto, sofria ataques frequentes da polícia local, quase sempre utilizando-se de uma viol&nci@ desproporcional.
Na noite de 28 de junho daquele ano, os frequentadores do bar reagiram e isso deu início a semanas de protesto. Desde então, ano após ano, em diversos locais do mundo as pessoas marcham nas ruas no mês de junho para exigir simplesmente o direito de existir sendo LGBTQIA+


Orgulhar-se de si mesmo é a forma mais genuína de auto amor!


 17 de Maio - Dia da Luta contra a LGBTQIA+fobia

A data foi escolhida por comemorar a decisão da Organização Mundial da Saúde (OMS) em retirar o termo “Homossexualismo” da Classificação Internacional de Doenças (CID) em 1990. 

A cada 29 horas, morre uma pessoa LGHBTQIA+ no Brasil. 

Por isso, hoje é um dia de luta!

#pride #lgbt


 


QUANDO INTERROMPER MEU ANTIDEPRESSIVO?

Após a postagem anterior, sobre Benzodiazepínicos, várias pessoas me perguntaram: e o antidepressivo que eu uso, quando eu devo parar? 

Primeiro e fundamentalmente, nenhum antidepressivo deveria ser iniciado, manejado ou interrompido sem o SEGUIMENTO RIGOROSO DE UM MÉDICO.

Não se deve interromper um antidepressivo de forma abrupta, pois isso causaria o que conhecemos como “EFEITO REBOTE” em que os sintomas retornam em uma intensidade muito maior do que antes do início da medicação. 

O tratamento dos principais transtornos mentais (Transtornos de humor como a depressão e transtornos ansiosos), envolve, principalmente, medicamentos que controlam 3 NEUROTRANSMISSORES (** neurotransmissores são pequenas partículas que estimulam nosso cérebro a ter sensações como felicidade, recompensa, saciedade ou irritabilidade, medo, angústia e etc). 

São eles: NORADRENALINA, SEROTONINA E DOPAMINA.  

Quando se inicia o tratamento e se encontra a “dose alvo” da medicação (aquela em que o remédio começa a fazer efeito no seu organismo), o remédio deve continuar sendo tomado por NO MÍNIMO 6 MESES antes de se pensar em interromper. 

Ao longo desses 6 meses, o paciente deve “buscar esses neurotransmissores em outras fontes” para que, então, seja possível o DESMAME GRADUAL, SEGURO E ACOMPANHADO DE UM MÉDICO. 

E quais seriam as outras fontes de NORADRENALINA, SEROTONINA E DOPAMINA? 

Segue algumas questões fundamentais para o tratamento de transtornos mentais (para além da medicação):

1- Acompanhamento de PROFISSIONAL COM ESCUTA QUALIFICADA, como a psicoterapia (para identificar fatores que possam desencadear essa contínua desregulação de "neurotransmissores")

2- ATIVIDADES FÍSICAS (Após atividades físicas intensas o corpo produz uma enorme quantidade de DOPAMINA E SEROTONINA que produzem a sensação de prazer e recompensa)

3- ATIVIDADES PRAZEROSAS como esportes, artes, afeto com pessoas queridas 

4- REDE DE APOIO entre amigos e familiares


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TODO MUNDO MERECE UM AMOR HEARTSTOPPER


@heartstopper a nova série da @Netflix, já nem tão nova assim, merece todo o meu marketing gratuito. 

Sem querer repetir os clichês de todas as críticas que circulam na internet, a série traz conforto a todos e todas que cresceram sem referências LGBTQIA+  e são ainda hoje acompanhados de sérios transtornos mentais. 

Depressão, ansiedade, baixa autoestima e a sensação incansável de não se sentir completo são, infelizmente, muito mais comuns nesse grupo específico do que na população em geral e o motivo é mais que óbvio. Para quem cresceu acreditando que era errado SER. Para quem tentou diversas formas de NEGAR A SI ou esconder aquela parte considerada suja, pecaminosa, imoral por todo o seu círculo social… Para quem não conseguiu e foi massacrad@ desde muito jovem por não seguir os padrões impostos. Para quem cresceu acreditando que não era dign@ de amor, carinho, afeto…

Ver dois jovens descobrindo o amor de uma forma tão pura ao mesmo tempo em que quase todas as letras da sigla LGBTQIA+ são representadas em círculo de amigos, que nada mais são do que adolecentes despreocupados vivendo a juventude que toda pessoa não hetero-cis-normativa desejou ter… E NÃO TEVE. 

Se você, como a maioria das pessoas LGBTQIA+ , não vive em um mundo Heartstopper e precisa de ajuda médica para lidar com problemas mentais,  se você já pensou ou ainda pensa em dar fim à própria vid@ por não ver sentido em um mundo que nega sua própria existência…  Saiba que o mundo merece te ver bem! Que as novas gerações precisam conhecer histórias bonitas. 

Se você está nessa situação, acha que precisa de ajuda médica para lidar com problemas mentais ou conhece alguem que precise, siga @manoelvictorfs e entre em contato para agendar uma consulta, pois serei muito grato em te acolher. 





 PERCO O SONO TODOS OS DIAS, ÀS 3:00 HORAS DA MANHÃ! E AGORA?

É muito comum que os pacientes se queixem de perder o sono nesse horário específico. O que isso quer dizer?

Entre as 2:00 e as 4:00 horas da manhã é quando ocorre o pico de um hormônio chamado cortisol. Este hormônio é responsável por uma série de funções no organismo, inclusive nos manter atentos e despertos. É ele quem vai nos manter acordados durante o dia! 

Em casos agudos de estresse, crises de ansiedade ou pânico ou mesmo quando estamos diante de um grande perigo, ele é um dos hormônios que se eleva rapidamente para que tenhamos energia para “correr ou lutar”.  


Acontece, que se estamos passando por momentos difíceis como quadros de ansiedade, estresse ou mesmo depressão com sintomas ansiosos, esse hormônio fica elevado em seu organismo por mais tempo e, neste horário específico, com o pico de cortisol no seu sangue, você acorda abruptamente e cheio de energia para realizar diversas tarefas. O sono só volta quando o cortisol volta aos níveis normais no seu sangue (geralmente na hora que você deveria acordar). 

O que devo fazer com essa informação? 

Observe se você não está sofrendo de um quadro ansioso ou depressivo! 

Tente reduzir o estresse no seu dia a dia! 

Dedique um tempo para atividades prazerosas! 

Pratique atividades físicas.  


 “A ANALOGIA DA FERIDA”

A Analogia da Ferida é uma comparação que sempre utilizo para explicar aos meus pacientes com transtornos mentais (com destaque para quadros leves a moderados de depressão e ansiedade), que a medicação, embora fundamental em alguns casos, não é o suficiente para os bons resultados do tratamento. 

“Imagine uma ferida profunda em qualquer localização do seu corpo. Analgésicos comuns podem facilmente tirar a dor, mas será que são o suficiente para tratar a lesão?? 

Para que a ferida se cure é preciso limpar com cuidado e, em alguns casos, costurar a ferida com agulha e fio.  Algumas feridas, já infectadas, precisam de antibióticos e remédios mais potentes. 

A dor emocional, tal qual qualquer outra ferida, necessita de uma atenção especial. Embora a medicação seja, em alguns casos, uma etapa fundamental para reduzir a dor psíquica, ela não é o suficiente na amplitude do cuidado. 

É preciso:

  •  Apoio profissional com uma escuta qualificada (a psicoterapia, por exemplo);

  •  Realizar atividades físicas frequentes e com intensidade progressiva

  •  Modificações alimentares, 

  • Buscar uma rede de apoio entre amigos e familiares 

  • E, principalmente, se afastar do que causou a ferida…

domingo, 15 de dezembro de 2019

JALECO BRANCO NA PELE PRETA


Era fim da manhã no ambulatório de otorrinolaringologia de um hospital universitário qualquer. Não mais prontuários sob a mesa e a Staff, uma mulher de meia idade que ostentava um corpo esbelto, olhos claros e uma vasta cabeleira loura, papeava com o grupo de internos e residentes, cuja pele e o jaleco tinham quase a mesma cor.
Timidamente, da ralé de sua mais baixa posição na hierarquia médica, três graduandos pretos tinham nas mãos o papel que lhes atestaria presença e aguardavam ansiosos pelo carimbo e assinatura da Doutora.
_ A senhora viu que a redação do ENEM deste ano foi sobre deficiência auditiva? Perguntou uma das residentes louras.
Os olhos da Otorrinolaringologista brilharam e de entre seus lábios saíram palavras bonitas sobre o quanto era importante que agora dessem visibilidade a um problema que afeta tantas pessoas. Mas, ao fim da enunciação eufórica, seu semblante mudou de repente para algo quase decepcionado e falou inocentemente:
_ É... Mas agora entra todo mundo na universidade... Entre preto, entra índio, só não entra quem estuda!
A residente deu trela e o assunto continuou por mais algum tempo.
Os três graduandos, invisíveis em cantos distintos da sala, fitavam os sapatos brancos desejosos de assinatura e carimbo para fugir logo daquele lugar apertado. Mas as palavras continuava a chicotear sangrando em suas costas e massacrando a pouca estima que ainda sentiam por si mesmos. Que pena olharem para o chão, pois se vissem uns aos outros talvez teriam encontrado o mínimo de força.
Ainda fitava o chão, quando voltou pra casa o que tinha o privilégio de voltar caminhando. Enquanto seu sapato branco rastejava entre o tapete vermelho de flores de flamboyant, permitiu que uma lágrima lhe fugisse dos olhos. Apenas uma, as outras ficaram contidas e se tornaram ira. Jaleco branco na pele preta, choro baixo é luta!

PROPUESTA INDECIENTE



Julho de 2015.
A tarde chegava ao fim e eu caminhava pela praia de Ponta Negra com o gosto da vitória de quem apresenta seu primeiro trabalho científico. Um relato de caso no Congresso Brasileiro de Medicina de Família e Comunidade.
Em algum momento, deixei-me cair sob a areia e fitei o mar, que me convidava a um mergulho. Sem querer deixar sozinhos meus pertences, pedi ao rapaz sentado na mesa alguns metros de mim que os observasse por alguns momentos. Ele assentiu com um sorriso. Desviei os olhos da malícia que me despertou aquele sorriso. Corri para o mar deixando a mãe, que àquele tempo eu não conhecia, envolver-me em um abraço morno.
Voltei pela areia com o arrepio da brisa de fim de tarde e agradeci ao desconhecido por evitar um roubo qualquer.
- Sou Guto!
- Guto de Gustavo?
- Guto de Agostinho.
- Como o filósofo?
- Sim, como aquele filho da puta.
Deixei escapar uma risada, baixei meus olhos envergonhado e reconheci na tatuagem um dos meus desenhos. Era um coração anatômico com flores ornando a arco aórtico e a veia cava com uma pequena diferença...
- No meu desenho, o coração tem feridas e sangra.
- O meu também já sangrou... O que você vê são as cicatrizes! E sorriu olhando fundo nos meus olhos... O que é que está sangrando aí no seu coração?
Eu, que era jovem demais para saber que o quão clichê era a dor de amar outro homem, baixei um pouco mais os olhos como quem não deseja falar. 
Puxou uma das cadeiras e aceitei o convite a uma cerveja. Soube sobre suas viagens por Cuba, Guatemala, Nicarágua e desfrutei um pouco de sua opinião sobre cada um dos temas que nos importunava socialmente naquele tempo. Eu disse pouco, como quem tem medo de mostrar-se a um desconhecido, mas abri coisas profundas que ainda não havia contado ao melhor dos meus amigos.
Nem percebi que o sol seguia afundando no mar e a imensa lua aparecia no céu deixando-o quase tão claro como no dia.
- Estão fechando... E estendi a mão em um gesto de despedida.
- Espere... Acho que tenho uma ou duas garrafas de vinho... Moro logo ali! E apontou para um dos prédios de frente ao mar.
Usei o álcool como pretexto e como desculpa... Subimos as escadas... Abriu a garrafa e me serviu uma taça, enquanto eu me acomodava desconfortável e desajeitadamente na ponta do sofá.
Ligou uma velha vitrola e deixou tocar no disco as músicas haviam embalado minhas aventuras cubanas alguns meses antes... Acendeu um cigarro, depois me trouxe papel e lápis...
_ Quero que me desenhe! E se despiu, debruçando-se na janela. A fumaça que exalava de sua boca dançava no céu e a lua cheia disputava o protagonismo da noite com o mar e o Morro do Careca, enquanto a brisa de Iemanjá fazia flutuar a alva cortina aberta, formando a moldura perfeita para a imagem que eu pintei em minha mente antes mesmo de deslizar o lápis no papel. Quando o fiz, foi como se eu tocasse com minhas mãos cada parte do corpo que imprimia na folha em branco. Tateava-lhe os cabelos, ombros e imprimia meus dedos no detalhe de suas mãos. Seguia pelo dorso e apalpava suas nádegas com meus traços fortes.
Não sei ao certo quando concretizei esta metáfora, mas quando me dei conta, deixava meu corpo seguir o embalo dos versos cantados em espanhol sentindo o gosto de vinho em sua boca.
Acordei no meio da noite. Envolto em lençóis brancos e limpos, era de um homem a respiração que se afogava em meu peito acelerado. Eu tinha medo e é do medo que nascem os piores sentimentos.
Saí no meio da noite. Como nos filmes, só lhe deixei um bilhete no verso do papel tingido, em meus traços pobres, com a imagem ainda impressa em minha memória. 

segunda-feira, 27 de maio de 2019

O Segredo de Oxum




_ O senhor fuma, doutor?!Questionou surpreso o interno ao me surpreender com entre uma baforada e outra
Baixei os olhos
_ Você já se apaixonou alguma vez?
O jovem e futuro médico olhou através de mim como se buscasse alguma explicação para tal pergunta.
_ Que gosto tinha o beijo?
_ Balas de menta... Respondeu. E deixou fugir do bolso o pacote que eu o vira mastigar entre uma consulta e outra.
_ O meu tinha esse gosto... E suguei a fumaça... Esse gosto de quem tem muito pouca estima pela própria vida... E eu tinha mais ou menos a sua idade...
Do elevador do Hospital Universitário de Brasília saquei do bolso o celular e focalizei a câmera no espelho. Escolhi, das fotos que eu tirei, a que melhor representasse o meu sorriso após horas infernais de um interno de medicina. Pensei naquele rival de infância que veria a minha foto e sentiria desprezo por sua própria vida analisando meu sucesso nas redes sociais e, de olhos fechados, pensei que não queria ir para casa. Tirei mais uma vez o celular do bolso e, enquanto caminhava pelo estacionamento vazio, deslizava faces de rapazes bonitos tentando descobrir quem seria minha companhia daquela noite. Foi assim, o recomeço de uma história... Dois rostos, conhecidos de antigos carnavais, recombinados pelo anseio de preencher o vazio de uma noite qualquer.
_ Finalmente vamos nos encontrar. Disse ele.
- De onde nos conhecemos mesmo?
_ Não sei... Algum amigo em comum?
_ Sim, vários.
_ Foi daquele carnaval? Foi daquela festa no Outro Calaf?
_ Não sei...
Abrimos a cerveja que levei, ele acendeu um cigarro e falamos tanto de nós mesmo que em pouco tempo já nem importava mais de onde nos conhecíamos. Mas, sim, éramos velhos conhecidos. Quando veio o primeiro beijo, senti como se lhe sugasse cada uma das palavras que não me havia dito e nem seria mais preciso palavra alguma, pois cada um de seus pensamentos agora me pertencia.
Lembro da música que tocava e de como me transportei para tantos lugares naquele beijo. Nosso sexo começou ali mesmo, na cozinha. Despimo-nos com a fúria de quem tem sede de algo que os corpos não oferecem a almas que não se vinculam.
Enquanto nossos corpos se penetravam, aquele som inebriante me transportou através do tempo e me vi de novo envolto nos braços de minha primeira namorada às vésperas de um dos primeiros vestibulares ao mesmo tempo em senti o cheiro do desconhecido que ainda encontrarei no futuro. Estava de novo ao lado dele e os gemidos orgásticos uniam nossas almas fazendo-as dançar como espectros gasosos de origem diferente formando um redemoinho entre mil pontos cintilantes.
Ainda não sei se foi um surto psicótico, o efeito alucinógeno de algo que bebi ou um estado mediúnico. Na mensagem que enviei uma amiga, chamei de “experiência extracorpórea” e a escolha das palavras gerou muitos risos nos bares que vieram depois.
Saí daquele apartamento na 712 norte com a alma preenchida. Estaria satisfeito por aquela noite mesmo se nunca mais se repetisse. Ainda assim, eu queria muito que acontecesse outras vezes.

Levou alguns dias, mas fui eu quem mandou a primeira mensagem e nos vimos mais uma vez ainda naquela semana. Mais uma vez nossas conversas na cozinha, a música ioruba tocando na TV ligada e o olhar conservador de Persefane (a filha de estimação que lhe restou de seu mais conturbado relacionamento)
Persefane mereceria um conto só dela, tal era a presença que deixou em mim. Seu pelo branco e macio era só mais um dos detalhes que me abraçavam em sua presença.
A lua era cheia e iluminava todo o apartamento. Eric caminhou até a sacada e acendeu um cigarro. Eu o segui, primeiro com os olhos enquanto acariciava o pelo de Persefane. Depois, levantei-me e o abracei pelas costas. Fiquei assim por longos instantes apenas observando as baforadas tóxicas de tabaco e nicotina dissolverem-se no céu claro que eu nunca tinha visto na Asa Norte.  Mais uma vez as palavras pareceram desnecessárias...
Mais uma vez o sexo louco, mas dessa vez me permiti ficar mais um instante. Ele se encaixava perfeitamente entre meus braços e o calor que emanava de seu corpo nu me aquecia por dentro. Meus mamilos tacavam suas escápulas e nossos corações pareceram alinhados e ancorados em um mesmo ritmo, como se o dele batesse em meu corpo e o meu no dele... Ou como se não houvesse entre ambos as paredes de ossos e músculos e dançasse grudados a melodia Tum-tá-Tum-tá.
Havia algo diferente nele no terceiro dos nossos encontros. Uma inquietação que não conseguir ler em seus pensamentos... Frases pareciam desconexas... O caminhar de um lado a outro na sala... O telefone tocava a cada minuto e ele falava agitado com pessoas diferentes enquanto Persefane fazia o papel de anfitriã deixando-me acariciar seu pelo. A amiga da faculdade, a mãe, o colega de trabalho...
Talvez não fosse uma boa hora... Pensei e ele parou no mesmo instante e mostrou que ainda sabia ler meus pensamentos.
Depois daquela noite, Eric afastou-se de mim por um tempo. Nos primeiros dias, uma ou duas mensagens não respondidas me mostraram que talvez eu não fosse mais tão bem vindo em sua vida. Deixei que me afastasse apegando-me ao pouco que me restava de amor próprio imerso no mar de carência.
Foram tempos difíceis, confesso.
Naquela quarta-feira, uma amiga pediu um conselho sobre amor... Eu que nunca fui bom de amores, de conselhos era o melhor. Disse que deveria insistir, já que não conseguia superar aquele talvez.
Ela sorriu com ironia. E digitou um desafio em poucas palavras.
“Uma teoria deve ser testada”

Refleti por menos de um segundo, pois era só o que eu precisava para tomar o primeiro passo.
Não fugi do clichê “Oi sumido” e ele respondeu como se tivéssemos nos visto no dia anterior. Convidou-me ao cinema e eu escondi o meu sorriso bobo em uma mensagem ambígua. Mas nos minutos que antecediam minha pontualidade compulsiva, experimentei quase todas as roupas que eu tinha.
Ele elogiou que eu vestia amarelo e eu nem reparei que ele usava a mesma camisa de quase sempre.
“Amarelo é a cor de Oxum” disse ele. E foi a primeira vez que ouvi dizer sobre a mãe das águas doces.
Nunca conseguimos chegar ao cinema, pois nos perdemos nas muitas tesourinhas da Asa Norte e nos atrasamos para o filme que ele queria ver. Voltamos ao mesmo apartamento, às baforadas para a lua e ao beijo com gosto de tabaco.
Mas a partir de então, passamos a nos deixar ver sem pressa...
No fim de dois meses inteiros eu me deixei seguir pelas aves que cantavam dentro de mim e com o gosto que voavam me faziam flutuar. Estava com ele quando não estava no hospital e, as vezes, mesmo no hospital, sentia perto o gosto dele.

Certa vez, depois do amor, fez ar de mistério e disse: “Vou te contar uma história”. Mordi o lábio inferior como quem pede que conte logo.
“Iemanjá teve Ogum, depois Exu e por último teve Oxóssi. Ogum foi à guerra, esse era seu lugar. Exu saiu ao mundo, pois não era de se prender. Restou Oxóssi.
Oxóssi queria ir às matas e Iemanjá teve medo, pois sabia que nas matas vivia Ossain e temia que o filho caísse em seu feitiço. Ainda assim, não pode se opor.
Assim que se viu na mata, Oxóssi encontrou um estranho que lhe ofereceu agua. O filho de Iemanjá tinha sede e fez menção de aceita-la. Antes que tomasse o primeiro gole, Ossain o advertiu: “Se beber, vais se apaixonar por mim!”. “Pois eu quero mesmo assim”, respondeu Oxóssi. E bebeu. Assim feito, apaixonou-se louca e irracionalmente por Ossain e os uivos que se ouvia nas matas eram os gemidos do amor entre os dois orixás. Acontece que Ogum, irmão de Oxóssi e dono da guerra, soube do feitiço que se impusera em seu irmão e foi logo se opor a Ossain. “Volte a sua guerra!” ordenou Oxóssi “pois era apenas água, o que meu amado me deu de beber”””  
Beijei-lhe a boca e percebi que estava ali o pote de Ossain.
Eu que não tinha família na capital, achei que era hora de apresentar-lhe meus amigos. Juntei todos numa festa no gramado abaixo do apartamento que dividia na 406 norte e, no mesmo dia, lhe pedi em namoro. Ele desviou os olhos, desconfortável, e foi embora mais cedo que imaginei. Não pude impedir, mas não me lembro de mais nada daquela noite. Acordei numa poça do meu próprio vômito e passei dois dias sem notícias de Éric.
“Nunca peça um amor a Oxum, pois o único amor que ela oferece é o amor por si mesmo”. Algo que me recordei no exato momento que despertei.
Foi no mesmo sofá, diante do mesmo olhar puritano de Persefane que nos dissemos “adeus”. Eu sabia que ele não estava preparado para uma relação, mas realmente acreditei que seria possível manter o que quer que estávamos vivendo. Reconheci que havia sido um erro dar nome, qualquer que fosse. Mas ele achou q faria meu bem transformando aquele momento em um ponto final.
Evitei os olhos dele e levou-me até a porta como se faz a uma visita qualquer e ainda disse “para que você volte”. Devolvi com o olhar de quem diz que não voltaria e senti o aperto antecipado da saudade de Persefane.
Antes de ligar o carro, usei o pouco que me restava dos dados da internet do celular para reinstalar aquele aplicativo. Não precisei deslizar mais que um ou dois rostos para me deparar com o dele e senti a velha dor de quem se prende em suas próprias expectativas. Corrompi o mal gosto que ficou em minha boca com uma caixa inteira de chocolates e várias cervejas ao lado dos bons amigos que a vida me deu.
Mas percebi que havia vivido sozinho a parte importante da história que me pareceu tão bonita.
A verdade é que para amar de volta, uma pessoa precisa se amar primeiro. Algumas delas... De tanto querer destruir a si mesmas... Em algum momento conseguem... E levam consigo tudo o que há em volta.

No meio daquela tarde, recebi a mensagem de um amigo perguntando por ele. A princípio, não entendi o porquê de tal preocupação e tentei ignorar a pergunta. Mas a segunda mensagem trazia o link de uma reportagem do Correio Brasiliense em que constava a história de um rapaz de 25 anos, desaparecido há dois dias. A segunda reportagem relatava que tal rapaz havia sido encontrado e em qual hospital se internara.
Confesso que pensei mais de uma vez. Uma parte de mim tentou ser prudente, afinal, ir até lá seria mergulhar mais uma vez em uma história que eu já sabia não ser bem vindo. Parei o carro e aguardei uns bons minutos no estacionamento analisando minhas motivações... Mais de uma vez liguei o carro para voltar pra casa. Eu não consegui. Vesti o jaleco que deixara dobrado no banco do passageiro e caminhei até a portaria como se estivesse sempre por ali. Passei pelo porteiro e deixei escapar um “boa noite” e um sorriso forçado esperando que ele não visse que o meu crachá era de outro hospital. Perguntei por um ou dois seguranças onde era a Unidade de Terapia Intensiva, onde acreditei que o encontraria e a cada um contei uma história diferente. Foi assim que cheguei ao quarto andar. Vasculhei leito por leito e em cada pedaço de corpo esperava encontrar algo que me lembrasse dele.
Sem sucesso, questionei à médica responsável por aquele espaço apresentando-me como interno de medicina da Universidade de Brasília, o que de fato era verdade. Eu não ousaria, no entanto, revelar que minha motivação ali era muito mais que acadêmica. Mostrou-me onde o encontrar e descreveu de forma precisa cada detalhe do que estava escrito em seu prontuário. A precisão clínica que decepou qualquer das minhas esperanças.
Foi pelas escadas que desci os quatro andares, mas não era essa a causa da alteração em minha frequência cardíaca ao me ver a poucos metros dele.
Reconheci a tatuagem no braço esquerdo e cada detalhe de seu peito nu. Pela face, eu jamais o reconheceria. Fitei por alguns instantes sem de fato entrar na enfermaria, impedido por um choro estridente. A mulher de cabelos louros que chorava era a mesma que vi uma vez em uma foto. Olhou-me como se me conhecesse, mas antes que me visse novamente, dei as costas e parti com uma lágrima em cada um dos olhos.
Compreendi o meu papel nessa história. Nenhum! E foi Eric quem me expulsou dela. Por isso, decidi que era hora de partir.
Fiquei feliz por ele, mas naquela noite no meio da semana aceitei o convite de uns amigos para ir a uma festa qualquer. Lá pras tantas, depois de muitas doses de algo que nem sei o que é, jurei ter visto Eric no meio da pista de dança. Mal suportei a agonia de saber que não era ele.
Busquei sentir mais uma vez o gosto daquela boca… Pedi um cigarro e suguei como se fosse o ar de dentro de sua boca escondendo-me no canto da bar. Fui-me embora sem me despedir e abracei minha covardia entre os cobertores… Ela era magra como ele.

_ E a história acaba assim? Perguntou o interno decepcionado
_ Uma amiga, vendo minha dificuldade em superar a história de Éric, trouxe a informação de que ele voltara ao à cidade natal para concluir seu tratamento. Fingi não me importar, enquanto vasculhava diariamente as redes sociais em busca de qualquer vestígio dele.
... Foi no meu aniversário naquele mesmo ano. Alguns dias depois, na verdade. Recebi dele uma mensagem e voltamos a trocar mensagens. No auge da ilusão refeita, refém do álcool, enviei-lhe uma música que havia tocado a semana toda no som do meu carro, no fone durante a corrida, no rádio durante o banho. Arrependi-me logo. Mas já não podia apagar o que havia enviado.
Foram meses em que uma parte de mim sonhava com ele refeito, voltando a mim para viver a história que a vida nos roubara.
Um dia, ele perguntou o que acontecera, já que não se recordava de boa parte. Obrigou-me nesse momento a relembrar qual era o meu papel nela.
Pela primeira vez em todo esse tempo, entendi o amor que me faltava.
 “Nunca peça um amor a Oxum, pois o único amor que ela oferece é o amor por si mesmo”.



Manoel Victor Ferreira Silva

domingo, 31 de maio de 2015

Sobre placas e cartazes...

Foi Nietzche quem separou o comportamento humano em duas morais...  Pois aí vai uma interpretação pessoal de ambas, não se sinta ofendido, leitor que se inclui entre os fracos e moralistas, pois sempre há chance de contestar os velhos erros e tomar as rédeas da própria vida. Dirão que grandes vilões da humanidade também usaram interpretações de Nietzche, pois eu digo que eles falsearam o verdadeiro sentido de sua obra.
A primeira, a moral do escravo, é uma negação da vida... É viver de acordo com o que já foi feito ou dito... É o apego demasiado às convenções e às verdades estabelecidas... Incontestáveis... Eternas... Universais... Homens e mulheres que nunca sentirão o verdadeiro gosto de ver o outro além de seu sexo, de seu gênero, da cor de sua pele, dos erres e dos erros em seu sotaque, das crenças, das formas... Fracos que usam o moralismo para esconder o medo da vida... O medo de olhar para dentro de si, encontrar um pouco de humanidade e ver que o privilégio da posição social e econômica jamais faria que um ser qualquer fosse melhor do que o outro... Por medo, acabam sendo só mais uns ou outros no meio de tantos...

A moral do senhor, por sua vez, é uma moral dos que compreendem que a verdade é algo a ser construído... Senhores são os que se fazem donos do próprio destino e veem a realidade com olhos críticos. São aqueles que contestam aceitando que seu papel na humanidade é construir a justiça. São leais ao que a própria consciência diz ser certo e aparecem nos livros de história envolvidos nas grandes revoluções... Eles são capazes de transformar a realidade, pois nunca se satisfazem, são inquietos, nunca indiferentes... Desconhecem o medo e se arriscam em nome da felicidade, própria ou coletiva. Não se irritam com a opinião rasa dos que criam rótulos a seu respeito. Sim, são julgados das mais diferentes formas, pois fogem do padrão amargo de uma sociedade falida... No fundo, são temidos, pois ameaçam o conformismo dos que tem medo de viver, mas não se incomodam com o incômodo alheio. Sabem que, um dia, suas ideias renascerão na voz de outros que, como ele, sejam senhores de si mesmos... São “Combatentes temporários de causas eternas”...

  Assim, cabe a cada um de nós a escolha entre o medo e a ousadia... Entre viver em um mundo construído para poucos ou construir um mundo que possa ser habitado por todos. O que vale mais à pena: Uma moral falida ou o bem-estar dos excluídos na construção dela?

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Em nome de um nome...


Herdei o nome de um homem que foi grande em sua pequenez e soube levar a vida com a leveza de quem aprendeu a amar. Ele conheceu o amor em seu mais amplo aspecto e soube deixar um legado a ser seguido.... Uma herança que jamais se limitaria a sobrenomes ou títulos, bens ou tesouros materiais, pois abrange o que é verdadeiro... A pureza das formas e o efeito do sorriso, que nem sempre conseguimos distribuir como ele o fazia. Ainda assim, cabe a nós manter viva a chama de amor que ele acendeu em nosso peito.
Se souber olhar além do véu da matéria, qualquer um consegue perceber que a maioria de nossas angústias é passageira e, até certo ponto, banal. “Eu não tenho o carro do ano”, “minhas notas não são as melhores”, “aquela gordurinha perto do umbigo sempre aparece quando como chocolate”, “perdi quem eu amava”... Qual dessas demandas ainda o moveria daqui a um mês ou um ano? Qual desses conflitos é realmente relevante para que sua vida e a vida do outro sigam no rumo do Verdadeiro... O homem com meu nome sabia distinguir e não se deixar abater pelo medo ou ansiedade em relação ao que viria. Ele sabia que onde imperam as boas intenções, jamais faltará a base material para que elas se tornem reais. Mesmo que surjam as dificuldades, manter-se firme em um ideal nos faz colher depois a recompensa... Não... Não o façamos em busca dela... No entanto, é preciso ser sensível o bastante para saber-se recompensado de fato pelo simples fato de sentir-se útil fazendo algo pelo outro.  O orgulho que vem de dentro, em relação a si mesmo e as estar no seu caminho... Como o disse em outro texto, se a humanidade conhecesse a paz que há em uma boa ação, fazer o bem se tornaria o maior dos vícios...
 Sim, quando voltar para casa depois do bem feito, ainda te aguardarão os mesmos conflitos. Você, no entanto, terá colhido lições que te farão inexplicavelmente maior e saberá compreender que tudo passa. Terá a maturidade necessária para ser sincero consigo mesmo e dizer, se for preciso, “eu não sei o que fazer diante desta situação”. Então, de olhos fechados, pedirá e encontrará a paz e a confiança para lutar e buscar, caso valha à pena, ou, como na maioria de nossos dilemas banais, esquecer e partir... Novos rumos virão... Novas histórias... Novas verdades e novos silêncios... Novos versos... Novos motivos para fechar os olhos em um sorriso.
Cada um carrega, no fundo de sua alma, os anseios e motivos para seguir. Mas, como meu avô ensinou, só vale à pena viver se for para fazer a diferença, ainda que mínima, na vida de alguém. Só se tem a felicidade real quando se sabe colher as pequenas e diárias felicidades alheiras e viver por ai, cultivando flores em outros jardins pelo simples prazer de ver-lhes as cores... Pelo simples prazer de se fazer feliz na felicidade que o cerca. Só vale à pena viver se for para ser assim e, no final, o que sei de mim além de que fazer feliz é ser feliz e nada mais. O sorriso de paz onde imperavam lágrimas é e sempre será a maior das recompensas.
Onde estiver, quero que Ele nunca se esqueça da minha eterna gratidão e espero ainda merecer a honra de ter seu nome. Espero ainda merecer, em todos os aspectos, chamar-me MANOEL.  

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Só momentos que se foram...

Do quarto, ouço a TV ligada. Caminho até a sala e vejo que meu colega de república saiu e se esqueceu de apertar o desligar do aparelho... Acontece que o sofá, a mesa e as cadeiras ouviam alguém me descrever em um passado não muito distante enquanto falava sobre si. "Não sei se eu tenho autoconfiança para te olhar sem tremer ou gaguejar", é o que dizia a mulher na tela da TV. Foi então que eu lembrei de um tempo que tentei esquecer até perceber que era preciso encarar frente a frente para, finalmente, superar. Um tempo que nunca descrevi completamente, a não ser de uma forma abstrata. Quando eu me desviava das rodas de conversa por não saber me portar dentro delas... Quando eu precisava olhar para algum lugar para fugir dos olhos dos outros... Olhava para baixo ou para cima... nunca nos olhos...
 Lembrei da fila dos padrinhos no casamento da minha irmã, do céu azul, da grama verde e como foi sofrido estar ali, no que poderia ter sido um momento feliz...
Lembrei das noites em que eu acordava em meio a pesadelos... Dos olhos do sequestrador que me perseguiam nos sonhos, numa fila de supermercado, no meio da rua ou no dia do vestibular... Lembrei de quando parei de dormir para não sonhar e das olheiras que invadiram meu rosto. Lembrei da comida, que foi perdendo o sabor e se tornando mais uma obrigação para me manter vivo, quando eu já me considerava morto.
Lembrei dos murmúrios que eu ouvia como gritos nas salas panorâmicas do meu antigo cursinho e de como as pessoas me feriam ao falar acreditando não ser ouvidas. Eu? Eu só tinha medo.
Lembrei das vezes em que rezei para não existir e das em que me imaginei pulando da sacada do quarto do apartamento em que eu morava. Eu nunca quis morrer, mas quis muito não existir. Eu acreditava que, se eu não existisse, também não existiria aquela dor, que já se tornara física e apertava meu peito de uma forma que eu nunca soube descrever. Minha maior angústia era justamente saber que nem a morte me libertaria daquele pesadelo. Isso foi, no entanto, o que me manteve vivo e me ajudou a suportar o medo até ter forças para me livrar dele... A fé que minha mãe me ensinou e a que aprendi sozinho... Uma fé sem religião de quem aceita os fundamentos da Doutrina Espírita, mas se vê, no meio da tarde, em uma Igreja Católica orando fervorosamente por Nossa Senhora... De quem procura na Umbanda, no Candomblé, na meditação ou nas repetidas orações de uma novena o contato perdido com Deus e consigo mesmo.
Lembrei dos desenhos macabros que enchiam as páginas das apostilas e tapavam as letras, frases, parágrafos, fórmulas e tudo o que se dizia ser necessário saber para passar no vestibular... Lembrei, também, das coisas belas que surgiram quando aprendi a explorar a arte para mostrar a beleza que havia em mim, mas, antes, tive que descobrir que havia algo belo em algum lugar dentro de mim...
 Tudo começou naquele dia 15 de março, o sequestro, o rosto do sequestrador, as ameaças verbais, o transtorno pós-traumático...
 
Primeiro, me perdi na auto-piedade e uma das coisas que aprendi foi que ter pena de mim mesmo não resolve problema algum... Não, meu amigo, nas grandes lutas da vida é preciso ter coragem e maturidade para lidar com os problemas. Nesses momentos, curvar-se só te faz mais vulnerável aos ataques constantes da dor. Eu me curvei e doeu muito... Depois, aprendi que os problemas da vida se dividem entre os que se pode resolver e os que se resolvem por si. Então, não vale a pena demorar-se muito, nem gastar tanto o seu pensamento neles, pois isso abre portas para os tão temidos “males da alma”. Sejamos práticos, resolvendo ou deixando que os problemas se resolvam por si!
Hoje, diante daquele depoimento, percebi o quanto foram importantes para mim as poucas pessoas com quem compartilhei aquele momento... E, por elas, tenho saudade dos  intervalos de paz entre aos turbulentos ataques de mim mesmo. Dos intervalos das aulas, sob o Flamboyant florido, a parte bonita daquele cursinho macabro... Da Praça Sérgio Pacheco... Dos abraços apertados de irpai, os mimos de irmãe, a companhia da irmã do coração e companheira de vidas... Da comida de mãe, que foi ganhando o sabor conforme eu me sentia mais amado, e do pai durão que disse, pela primeira vez, “Eu te amo, meu filho”...  
Foi no amor, na fé e na arte que encontrei a saída... Agora, diante dessas lembranças tão raras, contradigo minhas próprias palavras. Aqueles momentos não foram os piores, nem os melhores. Foram tão bons quanto ruins... Foram intensos... Só momentos que se foram...

sábado, 20 de setembro de 2014

A Pasárgada

Eu costumava ser mais favorável às esquerdas... Naquele tempo, eu acreditava que a igualdade social plena seria a forma mais eficaz de conter o sofrimento... Depois,com minha própria dor, descobri que nem todo sofrimento é material...  Mas isso é coisa para outra história...
No segundo ano do ensino médio, para um trabalho multidisciplinar, li “ O manifesto do partido comunista” e saí fanaticamente, na exacerbação de meus hormônios juvenis, esbravejando que aquela era a solução, mas fiquei profundamente decepcionado quando descobri o que fizeram da doutrina de Marx. Olhei a política ao meu redor e parei de crer em uma solução. Tornei-me, como os da minha geração, um ser apolítico, apático em relação ao mundo, que faz mais por si que pelo outro ou pelo todo, sem um pensamento ou ideologia definida, que segue a vida por seguir, mesmo não se sentindo bem com a indiferença, e que não sabe em quem votar nas eleições...
Mas, sobre sistemas de governo, eu, na minha humilde e pouco politizada ilusão, penso ainda em um mundo sem governo, sem dinheiro e sem dor, onde a única lei seria a lei do amor. “Ame ao próximo como a ti mesmo”... Ame a ti mesmo... Ame ao próximo...
Nesse mundo imaginário, todos teriam as mesmas oportunidades, mas suas diferenças seriam levadas em consideração. Não se escolheria uma carreira por dinheiro, mas pelas próprias aptidões e todas as funções teriam o mesmo valor, sendo exercidas com o prazer de fazer-se útil ao todo. Não se faria o mal ao outro, a si, nem ao que seria de todos... Cada ser humano seria capaz de reconhecer em tudo o que o cercasse algo digno de seu cuidado, atenção e, principalmente, do tempo, que nunca lhe pertenceu, mas sempre chamou de seu.
Matar? Roubar? O integrante dessa sociedade desconheceria tudo o que é indigno da atenção humana... Ele não se deteria aos pequenos e mundanos desprazeres, não saberia desfazer o bem, não saberia desamar e não conheceria a dor...  
Então, chegaria o dia em que, sabedores de que ainda havia sofrimento em algum lugar do Universo, alguns desses indivíduos sairiam a pregar a sua paz e migrariam para outros cantos... Seriam notáveis e visivelmente diferentes do todo... Sofreriam por isso... Talvez se sentissem impotentes diante de tanta loucura... Tanta dor... Pode ser que ficassem loucos também... Mas, ainda assim, amariam ao próximo... Ainda que o próximo desconhecesse o amor, eles o ensinariam como sorrir nos momentos mais impróprios.
No meio da imperfeição, eles descobririam seus próprios defeitos... Suas fraquezas tão humanas... Talvez se culpassem por elas, até descobrirem que a culpa é um entrave para o amor, pois não ama a si mesmo quem se sente culpado. Também não ama ao próximo, por que só se ama realmente alguém, depois que se aprende a amar a si mesmo. 
Então, conhecendo-se melhor e amando melhor, eles voltariam para casa. Lavariam seus pés, repousariam seus corpos, dormiriam em seus leitos macios e matariam a saudade dos que ficaram. Na manhã seguinte, veriam o nascer do sol e descansariam seus olhos com a visão dos belos jardins. Então, diriam à pessoa amada: É hora de partir novamente, pois ainda há dor. Volto em breve, para um novo repouso.
 
 

sábado, 28 de junho de 2014

Muitas vidas em uma só...


Essa manhã, fui surpreendido com a seguinte reflexão:
“Você vive a vida de forma a querer a mesma vida sempre? Em outras palavras, você gostaria de repetir a mesma vida que tem agora eternamente?
Então, resolvi deixar de lado a matéria acumulada em um semestre (antes de uma semana com quatro provas seguidas) e me vi, simplesmente, a pensar e a escrever meus pensamentos para dividir em um blog, ultimamente, pouco utilizado.
Não há dúvida alguma de que estou feliz. Tenho provado a vida como quem degusta um bom vinho e talvez, seja esse o segredo do meu estado de espírito. Não tem tanto haver com ter realizado meu sonho, até porque minha euforia de calouro já passou faz tempo. É que, finalmente, aprendi a sentir o sabor das coisas boas e ruins de cada etapa. Acho que compreendi que estamos na vida para aprender ou por que eu aprendi a ser leve para navegar, sem precisar remar contra ou a favor da corrente e deixar que a vida  me leve para qualquer lugar e qualquer situação com a certeza de que, no final, vai dar tudo certo.

 Ainda assim, eu não gostaria de viver eternamente a mesma vida, nem acredito que isso seja possível... Afinal, a existência física é tão modificável porque nós o somos e as situações com as quais somos surpreendidos em nossas vidas são, de certa forma, consequência das nossas necessidades espirituais e da nossa realidade evolutiva naquele instante. Tudo isso acaba por alterar nossa postura diante dos desafios que a vida nos impõe. Mesmo quando resistimos ao aprendizado, chega um momento em que superamos aquela etapa e somos levados a buscar novos rumos. Cada experiência, assim, seria diferente em momentos diferentes do nosso crescimento, porque nós não agiríamos da mesma forma... A questão está em "viver como os homens do seu tempo", mas com a consciência de que cada ação tem uma consequência... Aproveitar ao máximo o momento e as experiências, mas sem faltas nem excessos, tentado crescer com tudo o que vem de encontro à nossas histórias...
 Só não vale à pena se desgastar com o futuro, nem com o passado ou perder a oportunidade de ser feliz agora. Mesmo que tudo pareça ruim, há sempre um bom motivo para sorrir, ainda que seja gargalhar das ironias que o destino tenha te proporcionado brincando com sua rota e te jogando de um lado para o outro. Ainda que você esteja perdido e não tenha a menor ideia do caminho a seguir, vale a pena sorrir... Sorrir para o sol que nasce, para o céu que é azul, mesmo que esteja cinza, para o som das aves cantando, ainda que ofuscado pelas buzinas dos carros, ou a lembrança dos momentos especiais. Vale à pena fazer do sorriso uma cicatriz no do seu rosto...

Também vale à pena conhecer gente nova e se permitir a uma boa conversa com alguém que esteja ao seu lado na monotonia de uma viagem de ônibus ou no ócio necessário de uma fila de banco. Vale a pena ser amigo de alguém, sem julgamentos ou pré- definições, pois não se escolhe amizades por critério nenhum... Amigos são as pessoas que a vida coloca por um tempo ao seu lado para que ambos cresçam com a convivência e descubram cada um o seu caminho, mas a lembrança do tempo compartilhado é e sempre será eterna.
Assim o sabor da vida está em reconhecer que ela é passageira e não se apegar a momento algum, porque momentos passam, caminhos se separam, mas lembranças ficam, mesmo quando a memória se vai. E assim vamos vivendo muitas vidas em uma só...

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Sempre em frente...


Ninguém erra por querer, ou não seria um erro. Errar é fazer algo ruim partindo de uma boa intenção.
 Dizem que o inferno está cheio de boas intenções... Eu não sei dizer... Já faz muito tempo desde que estive lá... E quem pode dizer que nunca esteve se não se lembra?
  Sei, no entanto, que somos todos falíveis e não querer errar ou não se assumir capaz disso, pode nos levar a cometer erros muito maiores...  Errar com pessoas não é algo que se faz... Tentar concertar, então, é o mínimo que se pode fazer...
E quando não se pode voltar atrás?
Siga em frente!
Assumir seu erro é o primeiro passo... Diga a si mesmo: Eu fiz algo que não faria novamente e não importa se foi ou não por intenção, o feito está feito e fui eu quem fiz...
O segundo passo é perdoar-se... Nenhuma alma consegue seguir em frente se tem na mala uma culpa... A culpa e pesada demais para qualquer um carregar... Jogue-a na primeira curva dessa estrada e não pense mais nisso. Um dia, nossos erros virão até nós e teremos a chance de refazer e desfazer o feito e o não feito, o dito e o não dito.
Então, além da culpa, jogue tudo o que estiver em sua mala e envolver aquela estória, exceto o que se tenha aprendido com ela, e siga em frente, sem lágrimas, nem músicas e sem direito a voltar... Permita a si mesmo um novo começo.
E quem me topar pela estrada, se for levar algo de mim, espero que leve o que for bom, pois o rancor é tão pesado quanto a culpa... Nenhum deles te deixa prosseguir  e nenhum deles te leva a lugar algum...
Assim partiremos ao desconhecido e ao conhecido com a visão de quem o desconhece, pois seremos novos, desfeitos e refeitos, dispersos pelo mundo, sem hora pra partir ou dia pra voltar, sem rumo pra viver como quem simplesmente vive. Então viva!  

sábado, 17 de maio de 2014

As palavras não ditas e os Mundos não vistos...


São momentos corriqueiros, conversas ou debates em que você se vê fingindo concordar com opiniões que divergem totalmente da sua só para não fugir da modelo simplista, mediano e, às vezes, preconceituoso. O que você teme? Ser julgado por não julgar?
Nos meus tempos de escola, a diversão de alguns dos meus colegas era humilhar com suas piadas um colega deficiente. Nunca concordei com tudo aquilo, mas guardei comigo como se discordar fosse um crime... Ainda guardo, com a certeza de que eu poderia ter feito algo.
Hoje eu compreendo o quanto fui egoísta e como poderia ter contribuído mais com o mundo sendo eu mesmo e admitindo que nem sempre o que a maioria acredita ser certo o é de fato. Mas continuo agindo assim, continuo a me omitir dos assuntos polêmicos por medo de gerar antipatia. Muitas vezes, eu escondo o que eu penso e com isso deixo que pessoas fora da conversa se ofendam com os comentários que eu respondi com o silêncio... É como se eu concordasse com eles. E assim vou concordando com o mundo do jeito que está. Indiferente à mediocridade e permitindo que ela se sobressaia.
NÃO!!!! Não é isso que eu vim fazer no mundo...  
Às vezes a vida cobra de nós uma atitude. Palavras ditas em tons diversos... Ainda que em um sussurro... Mesmo que você vá se arrepender depois... É preciso dizer o que pensa. Não falo aqui das pessoas que confundem grosseria com sinceridade, falo de ser sincero consigo primeiro e transmitir isso aos outros, sem medo... Quem nunca julgou alguém? Quem nunca foi julgado? Por que ter medo do que pensam? Por que ter medo de se contrapor ao pensamento alheio? O Maior dos homens não nos disse para não esconder a candeia sob o alqueire? Sim, Ele disse que de nada adianta ter a luz dentro de si se ela fica oculta.
 O medo de não ser aceito é o pior dos inimigos de quem tem algo a dizer, mas sempre haverá quem discorde e quem se contemple com cada sílaba do que você disser... Apenas diga e se o outro tiver um argumento melhor, aceite. Mude de opinião quantas vezes for preciso, desde que isso te faça alguém melhor... Desde que isso amplie seu mundo e ele se torne maior... Só não se cale e não aceite opiniões menores que as suas, de mundos menores... Não ofenda, nem se deixe ofender pela pequenez dos outros, pois, ao mostrar a ele seu mundo, ele pode crescer também ou mostrar outro argumento para que ambos cresçam juntos...
Cada um traz consigo uma mala cheia de objetos acumulados dos caminhos pelos quais passou... Eu trago sorrisos, lágrimas, poemas, medos, músicas, livros, pessoas, lugares... Esse é o meu mundo e disso se faz meu pensamento, minhas opiniões e aptidões. Quando tudo isso choca com objetos de outros mundos só pode haver crescimento, desde que nenhum dos lados se prenda a pré-julgamentos... Desde que ambos estejam dispostos a ampliar seus mundos...  

sábado, 22 de março de 2014

Nem única, nem eterna... Só bonita


 
Muitos meses se passaram e eu ainda acordo com a sensação de estar sonhando. Muita coisa aconteceu...  
Como o astronauta que eu quis ser, fiz minhas malas e parti para o Espaço. Guardei na bagagem minha velha vontade de mudar o mundo, mas deixei lá no fundo um espaço vazio. Eu sabia que a cada passo nessa estrada o pingo de saudade que havia ali se tornaria maior. Hoje, é infinita, mas isso não me entristece... Sei que só se pode ter saudade de algo que, ainda que por um mísero instante, nos fez feliz. Por isso, o tamanho da minha saudade só reflete a quantidade de momentos em que sorri nessa minha vida curta. Sim, guerras de barro, jabuticaba no pé, correr das ondas e o “pium pium”... Abraço apertado de pai, colo de mãe, meu irmão fingindo que morreu, minha irmã dizendo que sou adotado, o chorinho do bebê... Meu nome brilhando naquela tela, não em uma lista... E os irmãos que fiz ao longo do caminho, foram poucos, reconheço, mas são para sempre? E o momento em que eu disse “Eu te conheço de algum lugar?”... Será que eu de fato a conhecia a conhecia? E as derrotas? E os tropeços? E o que o aprendi? Sim... Se há uma coisa que eu não posso negar é que fui e sou feliz, fui e sou amado e é essa a fonte da minha saudade, como é também a fonte da minha felicidade...
Dias como hoje, em que a chuva te prende entre as paredes de um lar desconhecido e se quer regredir à infância sempre vão existir... Se eu fechar os olhos sei que posso ver... É a cozinha da minha velha casa. Meu irmão, na mesa, tem olhos pidões para o fogão e minha irmã meche a calda do bolo de chocolate enquanto minha mãe lava a louça. Ouço a TV ligada. É meu pai que cochila vendo o jogo de futebol... Passo um pouco a roda do tempo, mas ainda é sábado e ainda chove. As luzes do cinema se apagam lentamente, o filme vai começar, mas eu não quero ver o passarinho azul que canta em português, prefiro o reflexo dele nesses olhos verde-azuis... “Avise quando for me olhar!”, “Estou te olhando!”...
 Mas se há uma coisa nessa vida da qual não posso discordar é que tudo o que material é passageiro... Momentos, lugares, pessoas... Há, no entanto, uma forma de torna-las eternas... É guardar tudo isso de forma imaterial lá no fundo de si mesmo, carregado de sentimentos para que nunca se dissipe... Fica na memória e, mesmo que a própria memória deixe de existir, há sempre algo no inconsciente que lhe diz: Eu conheço de algum lugar... É impossível esquecer o que nos fez feliz, mas é burrice querer que tudo volte a ser como era, se a vida lhe mostra outros caminhos. Apego não é saudade. A saudade é a lembrança boa, que revigora e estimula a continuar. O apego não faz bem a alma nenhuma. O que faz bem é a liberdade, o prazer de acrescentar novos vínculos, novas memórias, novas histórias para contar... Guardando sempre os velhos motivos para sorrir e não há motivo mais belo do que a gratidão por estar vivo. Sinto por ter perdido momentos e oportunidades de sugar o melhor dos melhores momentos da minha vida por não saber o quanto, em sua simplicidade, eles seriam eternos... Sinto por não ter prendido entre os dentes o pão de queijo da minha mão para sentir o gosto por mais tempo... Fui guloso e comi de uma vez, porque queria logo que o tempo passasse... Que imaturidade a minha, pois o tempo vai passar de qualquer jeito, apesar ou contra a minha vontade e não há nada que eu possa fazer além de viver os momentos da melhor forma possível... Mas há sempre a chance de começar a agir e reconhecer que não se pode controlar o tempo, que algumas situações são inevitáveis, que nenhum instante acontecerá outra vez e apreciar a vida, não como se fosse única, nem como se fosse eterna, mas com a sabedoria de quem quer levar consigo o melhor de tudo o que houver em seu caminho.